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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Gentileza


Meus pés não alcançam o chão. Fico balançando-os continuamente com a esperança que o chão se aproxime. Em um descuido meu All Star vermelho chuta o balcão em minha frente e o atendente me olha com fúria. Sorrio e viro mais uma dose dupla de gentileza.  O líquido marrom deixa um rastro de fogo por onde passa. Prendo a respiração e aperto os olhos. Bato o copo no balcão. Uma tentativa frustrada de copiar os filmes.  Abro os olhos no mesmo instante de busco por ar. Outra onda de queimação.
-Meus problemas que deviam queimar. – As palavras saem sem meu consentimento e o garçom me encara novamente.
-Mais uma dose. - Peço. Ordeno. Suplico. Não sei mais com que tom as palavras escapolem de mim.
-Você já bebeu de mais. - Ele tenta puxar meu copo. Fecho minhas mãos com toda minha força em torno do copo. O gesto desesperado me presenteia com mais uma dose. Meus olhos brilham. Eu posso sentir.
-É o último. Você vai se levantar e ir embora.- O homem fala firmemente.
-Não posso. Tenho que cumprir uma promessa.- Sorriu levando o copo aos lábios. Sorvo de uma única vez todo o conteúdo. Queimação. Falta de ar. Queimação. -Tenho que me afogar em gentileza. 


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Minha morte



O vento acariciava meu rosto, meus cabelos eram lançados para trás com delicadeza. A seda do vestido tocava meu corpo, brincando com a minha pele a cada brisa.
     Abri meus olhos devagar e olhei para baixo. Minha respiração foi falhando na medida em que eu descia por cada andar com os olhos. Quarenta ao todo. Deslizei meus pés pelo parapeito, sentindo o cimento frio. Fechei os olhos novamente.
Amar um demônio fora o pior de todos os meus erros, condenando-me a morte. Não se pode amar um ser feito de ódio, um ser que vive do terror alheio, contudo, eu fui tola ao ponto de amar um.
Ela invadiu minha vida, tomando-a para si no segundo seguinte. De uma forma brutal e confusa, ele me mostrou como o amor pode ser doentio. Não posso dizer que me arrependo, eu tive escolhas e escolhi me doar completamente a ele. Doar minha alma.
   Meu coração estava calmo, tranquilo. Não me importava com as consequências. Tudo teria um fim, o sofrimento, a dor, o amor... Nesse momento ousei hesitar.
  “Tudo vai melhorar.” A voz rouca dele acariciou minha pele. Seus lábios tão próximos da minha orelha.  Seu corpo a centímetros do meu.
  Meu coração golpeou com força o meu peito. Uma certeza tomou conta de mim. A certeza do fim.
Antes de me entregar as chamas do inferno, que consumirão minhas lembranças, meus sentimentos, me livrando dessa dor surreal. Ousei virar o meu rosto, encarando-o.
O terno cinza sobre a pele morena. 
 Mergulhei nos olhos negros, deixando a certeza que eu o amava me afogar. Meu coração gritando enquanto admirava a expressão de dor no rosto perfeito. Tentei sorrir, para mostra-lhe que estava feliz, em vão. Meu rosto estava congelado, junto com o resto do meu corpo. A única parte de mim que ainda brigava, era o meu despedaçado coração.
Virei-me, olhando a avenida movimentada, vendo os carros cortarem o silêncio. Respirei pesadamente e então me lancei.
  Quarenta andares. Poucos segundos. O fim. Tudo estaria acabado.
   Meu corpo já estava jogado no ar, sentia o toque delicado do vento. Eu havia mesmo desistido de tudo por um demônio. Encarei o fim como a melhor solução, a única que me faria esquecer a dor de um amor errante.
Prendi a respiração, sentindo a proximidade do asfalto quente, foi quando senti seu toque em meu braço, acompanhado de uma rajada de vento de sentido contrário e o som do bater de asas. Senti seu corpo abraçar o meu.

   Minhas mãos se lançaram em seu peito dilacerado.  Senti meus pés tocando novamente o cimento frio do parapeito. Minha face sendo acariciada pelas mãos deformadas.  Afastei minha face vagarosamente, para poder encará-lo sem deixar nossos corpos se separarem.
  
 “Não precisa.” As palavras tocaram meu rosto com o calor de sua fala.

Olhei a face que há segundos estava perfeita, agora carregava as marcas do sofrimento. Cortes profundos demonstravam o quanto ele agonizou. O quão terrível pode ser o inferno.
  
  Meu coração chicoteava meu peito enquanto as asas dilaceradas me envolviam. A cor negra das asas não me incomodava. Era seguro. Encostei-me novamente em seu peito, as cicatrizes deixadas  pelas diversas queimaduras aranhavam minha face.
Seus braços me afastaram aos poucos. Vi-me presa novamente em seus olhos. Seus lábios tocaram os meus. O calor, o gosto de enxofre. Um segundo. E quando eu os abri novamente,  estava sozinha. Novamente sozinha.
   
 O vento brincando com o vestido, desarrumando meu cabelo. Um grito se formou no meu peito, esmagando-o. O grito arranhou minha garganta escapando pela minha boca, junto com um turbilhão de lágrimas.

Ainda conseguia sentir os lábios demoníacos tocando os meus. Nesse momento tive a certeza: ele já me matou. No momento em que surgiu na minha vida. Agora só me resta viver a morte.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Como se nunca estivesse existido

Parei o carro na entrada da casa. O sol estava a pino e o suor escorria por minha nuca. Minha cabeça girava e doía estupidamente. Encarei meu reflexo no retrovisor: os óculos escuros modelo aviador cobriam boa parte do meu rosto, mas não o suficiente. Uma pele fina e roxa brilhava abaixo de meu olho esquerdo. Demoraria um ou dois dias para que conseguisse abrir este olho novamente.
A porta estava trancada. Tive certa dificuldade em encontrar as chaves no bolso da calça. 

Arranquei os óculos e fiquei parado no portal enquanto meu olho direito se acostumava com a falta de iluminação. Minha cabeça doía e rodava ainda mais. Peguei dois comprimidos de paracetamol na segunda gaveta do armário da cozinha e uma garrafa pela metade de conhaque na prateleira de cima. Enquanto tomava os comprimidos com o líquido marrom notei que a mesa não estava posta. Sophia não havia tomado café.

Sorvi mais um bom gole de conhaque antes de entrar no quarto. A garrafa por pouco não soltou de minha mão quando avistei a cama vazia. Ela não estava em casa. Mais um gole e um olhar de relance sobre o criado mudo vazio ao lado da cama. Ela sempre deixava o livro que estava lendo pousado ali. Me virei bruscamente para encontrar uma estante com apenas um troféu de futsal e um cinzeiro. Os livros dela não estavam ali.

Meu coração palpitou e eu levei a garrafa a boca. A imagem do rosto dela banhado em lágrimas me encarando na noite passada me acertou junto com sua voz estilhaçada: Se você sair por essa porta eu vou embora! Vai ser como se eu nunca estivesse existido!  Minha mão encontrou espaço entre o compensado da estante a parede mal pintada. Tudo veio ao chão. Um chute. Depois outro. Mais um. Uma lágrima. Senti meus dedos dos pés doloridos e dei mais um chute. A estante estava despedaçada e minha garganta seca. Mais um longe gole.

Sentei na cama encarando o guarda-roupas. Temi que ele também estivesse vazio. Foi preciso mais dois goles para a coragem surgir e eu abrir as portas de madeira. Poucas peças masculinas existiam no interior do armário. Soquei com toda minha força a porta. Esfolei os nós dos dedos e gargalhei. Mais um gole e me joguei na cama.

Os lençóis exalavam um cheiro de amaciante e não o perfume doce de Sophia. Ela havia trocado a roupa de cama. Agarrei o travesseiro e inspirei o mais fundo possível. Nenhum vestígio de seu cheiro. Como se eu nunca estivesse existido. Nunca existido. Nunca. Levantei-me de forma brutal e a tontura me acertou como uma marreta. Esperei se amenizar e retirei todos os lençóis do armário. Nenhum tinha o cheiro dela.

A garrafa pendia vazia em minha mão enquanto caminhava até o banheiro. A pia estava vazia. Todos os seus cremes e maquiagens tinham desaparecidos. Nem os fios de cabelos que ela deixava no ralo após o banho estavam lá. Joguei a garrafa contra a parede de azulejos azuis e deixei o banheiro. Como se eu nunca estivesse existido. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca existido. Soquei a parede e olhei apreensivo para a bancada. Um chip de celular partido ao meio. Chorei. Chorei como uma criança. Ela havia me deixado. Nunca existido. Meu corpo dominado pelo álcool escorregou até tocar o chão.

A consciência escorria de mim vagarosamente. Fechei os olhos para reabri-los imediatamente. Uma voz doce ecoava ao longe: Daniel? Está em casa?